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Imagine as praias ensolaradas de Alagoas, novembro de 2022. O ar salgado misturado ao burburinho de uma equipe de filmagem, câmeras rodando sob o comando de um mestre do cinema nacional.
Era o início de “Deus Ainda É Brasileiro”, a sequência aguardada do clássico de 2003, dirigida por Cacá Diegues e estrelada por Antônio Fagundes. O que deveria ser uma celebração da identidade brasileira – com toques de humor, crítica social e aquela pitada de realismo mágico que só o nosso cinema sabe entregar, transformou-se em uma verdadeira novela. Meses se arrastaram, e o projeto, interrompido pela morte prematura do diretor em fevereiro, agora clama por um final digno.
A produtora LC Barreto, responsável por pérolas do nosso audiovisual, ainda precisa de cerca de R$ 280 mil para concluir a pós-produção. É um valor modesto se comparado aos blockbusters hollywoodianos, mas monumental em um contexto onde o financiamento cultural é um campo minado. Esses recursos seriam o sopro final para editar, sonorizar e polir o que Diegues deixou como legado inacabado, uma história que, ironicamente, questiona a divindade e a humanidade no Brasil contemporâneo.
Sem eles, o filme corre o risco de ficar eternamente no limbo, um fantasma nas prateleiras digitais. Falar de Cacá Diegues é evocar a essência do Cinema Novo, movimento que revolucionou nossa sétima arte nos anos 1960.
Diretor de obras icônicas como “Bye Bye Brasil” (1980), que capturou a alma migrante do país, e “Orfeu” (1999), uma releitura poética do mito grego ambientada nas favelas cariocas, Diegues não era apenas um cineasta; era um cronista da brasilidade. Seu olhar afiado desmascarava desigualdades, celebrava a diversidade e questionava o poder, sempre com uma elegância que misturava lirismo e rebeldia.
“Deus Ainda É Brasileiro” seria, sem dúvida, mais um capítulo dessa trajetória, uma ponte entre o passado otimista do original e o presente caótico que vivemos. Perder isso seria apagar um pedaço da nossa memória coletiva.
Casos como esse expõem a fragilidade crônica do cinema brasileiro: um ecossistema dependente de editais incertos, patrocínios volúveis e uma indústria que luta contra o desmonte cultural. Quantos projetos geniais naufragam por falta de verba, enquanto o streaming global inunda o mercado com conteúdo padronizados?
É crítico reconhecer que, em um país de contrastes brutais, o audiovisual reflete nossa vulnerabilidade econômica e política – basta lembrar das crises no Ancine ou dos cortes no Fundo Setorial. No entanto, há inspiração na resiliência: equipes que se mobilizam, campanhas de crowdfunding que surgem do nada, e a teimosia de produtores como os da LC Barreto, que insistem em não deixar a chama apagar.
É essa persistência que transforma fragilidade em força, provando que o cinema brasileiro, como o próprio Brasil, sobrevive reinventando-se.
Em um mundo onde deuses parecem cada vez mais distantes, o que significa completar uma obra póstuma? Talvez seja um lembrete de que a verdadeira divindade reside na nossa capacidade de criar, resistir e finalizar o que o destino deixou pela metade.

Que “Deus Ainda É Brasileiro” encontre seu fim – e seu público – para nos lembrar disso.
Finalizar esse filme não é apenas concluir um projeto: é honrar a memória de um mestre, preservar um capítulo do cinema nacional e reafirmar o direito de existir da nossa produção audiovisual.





