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12 de dezembro de 2025O nascimento do cinema catarinense em seu primeiro longa-metragem
Quando Florianópolis virou cenário, sonho e personagem
Antes de editais, leis de incentivo, cursos universitários de cinema e festivais consolidados, fazer cinema em Santa Catarina era um ato de ousadia quase ingênua — e profundamente apaixonada. Em 1957, um grupo de escritores, jornalistas, artistas e cinéfilos decidiu sair da plateia e entrar em cena. O resultado foi O Preço da Ilusão, reconhecido como o primeiro longa-metragem catarinense, um filme que não apenas tentou existir, mas que ajudou a fundar simbolicamente o cinema em Santa Catarina.
Santa Catarina antes do cinema
Contexto histórico
Até a década de 1950, Santa Catarina praticamente não existia como território cinematográfico no sentido da produção autoral de longas-metragens. Havia salas de exibição ativas, cineclubes organizados e um público interessado, mas não existia uma indústria estruturada nem uma tradição de realização ficcional em longa duração. Florianópolis era uma cidade pequena, ainda marcada por hábitos provincianos, embora culturalmente pulsante, com forte presença da literatura, das artes plásticas e dos debates intelectuais.
Rodado inteiramente em Florianópolis em 1957, O Preço da Ilusão tornou-se uma espécie de lenda cultural: celebrado antes da estreia, fracassado comercialmente, tecnicamente problemático, quase totalmente desaparecido, mas historicamente incontornável. Sua trajetória mistura idealismo artístico, improviso técnico, conflitos humanos e um retrato raro da cidade em meados do século XX.
No plano nacional, o cinema brasileiro atravessava um momento decisivo. A partir de meados dos anos 1950, filmes como Rio, 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos, romperam com o artificialismo dos estúdios e levaram a câmera para a rua, inspirados diretamente pelo neo-realismo italiano. Essa estética — realista, social, humana — chegaria com força ao sul do país, especialmente através de jovens intelectuais atentos às transformações culturais do período.
O papel do Grupo Sul
É nesse contexto que surge o Grupo Sul, coletivo modernista formado no final dos anos 1940 em Florianópolis por escritores, artistas e intelectuais empenhados em renovar a produção cultural catarinense. Com atuação decisiva na literatura, nas artes visuais e no pensamento crítico da época, o grupo reunia nomes fundamentais da cultura local, como Salim Miguel, Eglê Malheiros, Aníbal Nunes Pires e Silveira de Souza.
O Grupo Sul mantinha forte vínculo com o cineclubismo e foi responsável pela criação do Clube de Cinema de Florianópolis, espaço dedicado à exibição de filmes fora do circuito comercial e à promoção de debates estéticos e políticos. O passo seguinte foi quase inevitável: cansados de apenas discutir cinema, seus integrantes decidiram fazer o próprio filme, numa passagem da teoria à prática que marcaria definitivamente a história cultural do estado e daria origem ao projeto de O Preço da Ilusão.
Como relataria mais tarde Salim Miguel, discutir cinema já não bastava. As sessões, os debates e as análises teóricas conduziram naturalmente ao desejo de experimentar a prática cinematográfica. Influenciados pelo impacto de Rio, 40 Graus e pelo neo-realismo italiano, os integrantes do Grupo Sul decidiram realizar um longa-metragem genuinamente catarinense, feito com gente da cidade, histórias locais e Florianópolis como cenário vivo.
Do argumento ao projeto
A criação do primeiro longa catarinense
A ideia inicial do filme nasceu do desejo de retratar Florianópolis como ela realmente era naquele momento histórico: uma cidade em transição, marcada por contrastes sociais evidentes, sonhos modestos e ilusões sustentadas por promessas de ascensão simbólica. O argumento foi escrito por Eglê Malheiros e Salim Miguel, enquanto o roteiro ganhou forma com a colaboração de Emanuel M. Santos. Em sua fase inicial, o projeto chegou a se chamar Caminhos do Desejo, título posteriormente alterado para O Preço da Ilusão por decisão do produtor.
A produção ficou a cargo de Armando Carreirão, figura central na viabilização do filme. Sem apoio institucional ou recursos públicos, o projeto adotou um modelo cooperativo, inspirado na experiência de Rio, 40 Graus. Cotas de participação foram vendidas a políticos, comerciantes, intelectuais, aposentados e cidadãos comuns, muitas delas negociadas diretamente na Praça XV de Novembro, no centro da cidade. Entre os cotistas estavam nomes relevantes da vida pública catarinense, o que revela tanto o alcance quanto a curiosidade que o projeto despertou à época.
A direção foi confiada a Nilton Nascimento, vindo de fora do estado, assim como parte da equipe técnica, incluindo profissionais de fotografia, montagem e laboratório. A produção era artesanal, improvisada e cheia de limitações materiais, mas movida por uma convicção rara: a de que era possível fazer cinema em Santa Catarina, mesmo sem tradição industrial, inaugurando um capítulo decisivo da história cultural do estado.
Influências estéticas e equipe técnica
Elenco amador e a cidade como protagonista
O Preço da Ilusão assume de forma explícita a influência do neo-realismo italiano, tanto na estética quanto na proposta narrativa. A câmera se volta para o cotidiano, para os rostos comuns e para os espaços reais da cidade, buscando uma aproximação direta com a vida como ela é. Para compor a equipe técnica, vieram profissionais de fora do estado: Nilton Nascimento na direção, Eliseu Fernandes na fotografia, além de técnicos de som, produção e maquiagem. O encontro entre entusiasmo local e experiência externa resultou em uma obra ambiciosa, ainda que tecnicamente frágil em alguns aspectos.
Seguindo a lógica neorrealista, o elenco foi formado majoritariamente por atores amadores, selecionados em testes abertos realizados no próprio escritório de contabilidade de Armando Carreirão. Centenas de moradores de Florianópolis, de diferentes classes sociais, participaram do processo. A protagonista feminina foi interpretada por Lilian Bassanesi, estudante de Direito escolhida entre inúmeras candidatas. O menino Emanuel Miranda, então com apenas 11 anos, viveu o engraxate Maninho da Silva. O único ator com experiência profissional significativa era Celso Borges, que havia atuado em Rio, 40 Graus.
As filmagens ocuparam intensamente Florianópolis. Mais de 70% das cenas foram rodadas em locações externas, algo ousado para os padrões técnicos do período. Mercado Público, ruas do Centro, praias, bares, becos, praças e, sobretudo, a Ponte Hercílio Luz compõem o universo visual do filme. Mais do que cenários, esses espaços são tratados como personagens ativos da narrativa.
O enredo se constrói a partir de duas histórias paralelas: de um lado, a trajetória de uma jovem que sonha em vencer o concurso Rainha do Verão, revelando os bastidores da fama e da exploração da imagem feminina; de outro, a história de Maninho, menino engraxate que sonha em montar um grupo de boi-de-mamão, manifestação popular profundamente ligada à cultura catarinense. As narrativas se cruzam em um desfecho trágico na Ponte Hercílio Luz, onde sonhos e ilusões se desfazem de forma simbólica e literal.
A estreia e o fracasso
Uma noite de gala e expectativas altas
Após inúmeros atrasos provocados por dificuldades laboratoriais em São Paulo, O Preço da Ilusão estreou oficialmente em 9 de agosto de 1958, no extinto Cine Ritz, em Florianópolis. O lançamento foi tratado como grande acontecimento social: desfile dos atores em carro aberto, presença de autoridades e ampla cobertura da imprensa local e nacional. Antes mesmo da estreia, o filme já vinha sendo elogiado por veículos importantes, o que elevou ainda mais as expectativas.
O impacto, porém, foi frustrante. Problemas técnicos de montagem, som e sincronização comprometeram a recepção do filme. Apesar da pompa, ele permaneceu em cartaz por cerca de uma semana e não obteve o certificado de qualidade exigido à época para circulação nacional, inviabilizando sua distribuição fora do estado.
Tentativas posteriores de remontagem e até de refilmagens foram feitas, mas conflitos entre produtor e montador resultaram no desaparecimento de grande parte do material original. Das poucas cópias produzidas — três em 35mm e uma em 16mm — todas se perderam ao longo dos anos.
O sumiço das cópias
Um desaparecimento cercado de mistério
Após o fracasso e as disputas internas, iniciou-se um processo confuso de remontagens, refilmagens e conflitos técnicos. Nesse contexto, as cópias desapareceram. Há relatos de exibições clandestinas, perdas em laboratórios e até de ocultação deliberada do material. Durante décadas, acreditou-se que o filme estivesse completamente perdido.
Hoje, sabe-se que os negativos incompletos estão preservados na Cinemateca Brasileira, o único fragmento visível de uma obra que marcou época. Esse desaparecimento consolidou o mito de O Preço da Ilusão como “o filme que ninguém viu”.
O legado para o cinema local
Um fracasso que virou mito
Apesar das limitações técnicas e do insucesso comercial, a importância cultural de O Preço da Ilusão é imensa. O filme inaugurou uma forma moderna de produção cinematográfica em Santa Catarina e abriu caminho para iniciativas posteriores, como o Grupo Universitário de Cinema Amador (GUCA), ligado à UFSC, decisivo na formação de cineastas e na consolidação de uma cultura audiovisual no estado.
Mais do que um filme, O Preço da Ilusão tornou-se um documento histórico: um retrato de uma Florianópolis que já não existe, com seus espaços, costumes e ritmos. Seu valor reside menos no resultado estético e mais no gesto fundador.
Conclusão: A importância de O Preço da Ilusão
O Preço da Ilusão é um filme ausente, mas profundamente presente. Ele sobrevive nos relatos, nas pesquisas, nos fragmentos preservados e na memória cultural de Santa Catarina. Seu fracasso não diminui sua importância — ao contrário, a amplia. A obra ensinou que fazer cinema é também errar, arriscar e perder.
Mais do que o primeiro longa-metragem catarinense, o filme é um símbolo de coragem criativa e inquietação artística. Em tempos de produção digital abundante, revisitar essa experiência artesanal e coletiva é reafirmar que o cinema nasce, antes de tudo, do desejo de olhar para o mundo e dizer:
“isso também merece ser filmado”.
A S S I S T A
🎬 O Preço da Ilusão (1958) | Os 7 minutos finais do primeiro longa catarinense
T I M E L I N E
Linha do tempo: O Preço da Ilusão
1949–1950
→ Formação do Grupo Sul, núcleo modernista de Florianópolis.
→ Debates literários evoluem para interesse em cinema.
1955–1956
→ Salim Miguel, Eglê Malheiros e E. M. Santos desenvolvem o argumento do filme.
→ Início da venda de cotas para financiar a produção.
1957
→ Seleção de elenco: mais de 200 candidatas.
→ Filmagens em externas pela cidade: Mercado, Praça XV, Joquina, Hercílio Luz.
1958 – setembro
→ Estreia oficial no Cine São José.
→ Sessão desastrosa: problemas de som e montagem.
1959–1960
→ Desaparecimento das cópias; apenas negativos sobrevivem.
→ O filme torna-se “lenda urbana” do cinema catarinense.
Décadas de 1980–1990
→ Pesquisadores começam a reunir depoimentos e recortes.
→ Interesse crescente em compreender o papel fundador do filme.
Anos 2000–2010
→ MIS-SC confirma preservação de cerca de 7 minutos.
→ Cinemateca Brasileira mantém negativos.
2013–2015
→ Lançamento do documentário O Filme que Ninguém Viu (Marco Stroisch)
→ Jovens cineastas produzem o curta Desilusão.
Hoje
→ O Preço da Ilusão é estudado como marco da história do cinema catarinense e como símbolo do audiovisual independente.
Créditos : O preço da Ilusão fogo morto





